sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Transgênero

Dias de crise sobre identidade sexual. Aquele momento em que você repercebe que sua atração por garotas continua como sempre maior que a atração pelo sexo oposto, e começa a questionar se isso pode ter um significado maior na sua vida e na sua identidade pessoal. Medo de estar se enganando com a relação atual, de não ser realmente aquilo que possa te fazer plenamente feliz em um relacionamento. Aí você afirma pra si mesma com convicção que embora não goste de garotas você gosta desse específico, ama ele, e isso é tudo. Depois disso você começa a perceber que muitas garotas que já se dizem lésbicas hoje, do tipo que não se relacionariam mais com homens definitivamente, já passaram pela mesma situação: de não sentir atração, mas tem um garoto específico pelo qual tem muito afeto e gosta de ter por perto, mas que depois descobriu que era realmente feliz quando ficava com garotas, e dai, pronto, descobre sua sexualidade. 
Entrei nessa paranoia, quase cai no impulso de terminar pra ver se depois consigo descobrir qual é a minha, se é isso mesmo, e assim manteria-o como um grande amigo que iria me ajudar muito seja quem eu fosse e talvez, muito talvez isso seria ótimo pro resto da minha vida. Mas eu não sou impulsiva e valorizo muito o que tenho e sinto por ele, e não fiz essa atrocidade. Ele ficou triste o suficiente só com o fato de cogitar a dúvida, até porque veio depois da crise de abrir ou não a relação pra pessoas do mesmo sexo, e claro que não fiquei um pingo feliz com isso e também sentia que não era tão simples assim, que ele poderia ser realmente uma exceção. 
Foi ai que vi essa imagem: 
Aliás, não foi depois de vê-la, mas ela me fez entender algum raciocínio que estava formulando na minha cabeça. Depois desses questionamentos você para pra pensar nessa coisa dos rótulos e dos papeis sociais, de quem é quem, e da obrigação de você estar em um dos lados da moeda e corresponder àquele papel. Se você for lésbica você tem que ter um comportamento menos feminino, ser menos delicada, se vestir como garotos, agir como garotos, e se for pensar, você só está reafirmando o sexismo da sociedade. Pode ser que boa parte delas realmente sejam assim, e seja natural, mas porque não cogitar que algumas acabam forçando porque é geralmente que "tem que ser", é o estereótipo e eu devo me encaixar. Acontece o mesmo com meu companheiro, ele tem comportamentos atribuídos como masculinos e outros mais afeminados, e por que ele deveria ser apenas um dos dois? Assim como eu brincava de boneca, mas cresci não querendo me vestir da forma mais feminina possível. São comportamentos e não apontam pro mesmo lado e além do mais, você vai mudando com o tempo, como você que adora uma calça e começa a descobrir que usar vestido é muito confortável. E então, com a imagem me identifiquei com o "trangênero", que é um rótulo sem rótulo, um híbrido, aquele que você pode ter comportamento feminino num dia e masculino no outro, que você pode se achar hetero em um e homo no outro, ou bi todos os dias, ou simplesmente nenhum, você apenas sente atração e ponto. Enfim, a grande conclusão foi deixar o coração escolher e não essa paranoia de gênero. Se nos amamos e estamos muito bem juntos, terminar por uma questão de estereótipo não seria digno de tudo que construímos e queremos construir. Claro que eu acho possível que estas pessoas que "se descobrem" e ficam apenas com o mesmo sexo são realmente assim, que elas realmente podem ser indiferentes a atração pelo sexo oposto, mas também acho possível que isso possa ser atribuído a uma noção invertida de patriarcado, de que quando você descobre que gosta do que não foi determinado pra você gostar dentro da sociedade, você logo entende, que você só gosta daquilo, é a ideia de que ou é um ou outro, que nos leva a  determinismos novamente. 
Por fim, eu amo um ser humano, este ser humano é do sexo masculino, mas isso não quer dizer que eu me encaixo no estereótipo de uma garotinha heterossexual, muito menos ele no estereótipo de machinho heterossexual dominante.